À MESTRA, COM CARINHO

PARTE - I
MARIA DE LOURDES FREIRE BRAGA - A PROFESSORA
Educação Escolar – O inicio de tudo na região do alto Tapajós
Imagem meramente ilustrativa
O conceito de educação escolar surge para distinguí-la do processo de educação, uma vez que este não ocorre, necessariamente, institucionalizado. A distinção entre os termos surge da percepção de que a escola é espaço de transmissão de uma cultura específica, chamada de cultura escolar - possuindo uma arquiteturamobiliáriotempos, ritmos e práticas peculiares.  - Wikipédia (A inciclopédia livre)

N
atural do estado do Piauí, onde às margens do Rio Parnaíba, no povoado de Morrinho distrito do município de Parnaíba, viveu o inicio de sua vida com seus pais (Tiago Freire e Eduvirges Sales Vilar) e irmãos e ainda a parentela egressa do vizinho estado do Maranhão depois se interiorizando pelo sertão, no tórrido  ano de 1.954, Maria de Lourdes era uma menina na pré adolescência  que manifestava inteligência incomum para sua idade; em suas relações fraternais dentro de seu raio de ação social e que excedia em alegria cantando modinhas e cirandas de roda e contando historias de um mundo diferente, um mundo melhor para todos, mais justo, se todos fizessem uma busca: A Educação Escolar, lia em voz alta para aqueles que não conheciam a leitura e eram tantos naquele tempo; homens e mulheres rústicos, de roça, que não tiveram tempo de estudar já que a demanda do tempo gasto para famílias pobres era a busca incessante por alimentação no escasso sertão piauiense, onde o óleo do babuçu tão procurado era menos abundante que o suor desprendido pelas quebradeiras de côcos no esforço de produzirem renda familiar.

O INICIO DE UM SONHO – AS LONJURAS DO BRASIL

Contando com doze anos, mas ansiando por dezoito para achar uma oportunidade de extravasar seus dotes e prendas domesticas, com a finalidade de ajudar a família, vivia sonhando por uma vida menos sofrida para seus pais, queria  também poder colocar em realidade um  sonho acalentado em tantas noites  enluaradas de Morrinho; ser professora, ensinar a petizada, como faziam algumas mocinhas em seu povoado. Mesmo em tenra idade sendo a caçula do casal Tiago e Eduvirges, sentia a necessidade em ajudar a mãe a cuidar dos afazeres domésticos, como reduzir os galhos de árvores em achas de lenhas, cozinhar os alimentos, quebrar cocos babaçu, lavar roupas, reservava tempo extra  para a literatura de cordel que através das poesias romanceadas bem rimadas, que colocavam em confronto Lampião e Maria Bonita com as volantes a levaram a gostar de ler e exibir-se com seu dotes de menina  que gostava da leitura e a declamar versos do conterrâneo maranhense  Gonçalves Dias. A Inteligência da pequena Maria de Lourdes, sempre aguçada por um espírito aventureiro incontido a levavam a querer conhecer as lonjuras do Brasil; melhor se fosse pras brenhas do Pará, confidenciava à sua mãe.  Por ter como hábito a leitura, e mesmo com poucos anos dedicados ao estudo regular aprendera noções básicas de aritmética e português por vontade própria, discorria leituras desde os livretos de cordel passando por romances, e almanaques que viajantes ou caixeiros viajantes de passagens  por Morrinho deixavam pela única  barbearia da localidade.

RECRUTADOS – EXPLORAÇÃO DA hevea brasiliensis - FEB

Recrutados para a amazônia
Sua expectativa  em deixar sua terra natal em busca de novas plagas realizou-se   quando seu pai sob promessas de novos tempos para mudar a sina de lavrador do tórrido Piaui foi convencido por compadres que abundam sempre na organização social de pequenos aglomerados humanos quando juntam-se mais para lamentar a sorte que propriamente para comemorar algo importante. Naquele dia a família de Maria de Lourdes não necessitou de muita conversa para ser convencida a vir para o Pará, já que fora recrutada vir para a Amazônia, para a exploração de látex (hevea brasiliensis) nos seringais nativos, que é uma árvore nativa e originaria da bacia hidrográfica do Rio Amazonas,  como milhares de nordestinos já faziam desde o transcurso da segunda Grande Guerra Mundial.
O comércio de borracha
À época o mundo vivia ainda os rumores do final da Guerra, com a destruição de Nagasaki e Hiroshima motivada pelo bombardeio à base americana de Pearl Harbor pelos japoneses, e a economia global destroçada obrigava todos a empreenderem recuperação de suas nações. O Brasil não fugira a regra e mesmo tendo minúscula participação na Guerra, em Monte Castelo na Itália através da Força Expedicionária Brasileira, foi mesmo na selva amazônica que travou sua guerra maior ajudando os aliados e que   teve em todo o transcurso papel importante de ajuda aos americanos com o Batalhão de retirantes nordestinos que fortaleceram o nome do Brasil no chamado esforço de guerra ajudando os aliados, em  guerra paralela, não menos letal  que era ter que enfrentar as hostilidades de uma floresta tropical para guerreando contra malarias, cobras, onças e até índios produzirem a principal trofeu pós guerra “O látex” que ajudava a economia americana a se recuperar e ja ajudara no esforço de guerra desprendida.  A borracha, derivado do leite da seringueira ajudava a indústria pneumática e isso gerou renda para financiar a guerra e recuperação da economia americana. Os gringos decididamenten ajudaram à época a criar o banco da Amazônia para financiar o fábrico da borracha e o SESP serviõ de saúde publica, para promover a saude do amazônida enfiado na densa floresta tropical.   Estava decidido: a família viria para o Pará e a decisão foi celebrada com outras famílias que atravessavam o Piauí vindas do Rio Grande do Norte e Ceará que de passagem destinavam-se à Amazônia.
O EXUBERANTE TAPAJÓS – ENTREPOSTO DE COMÉRCIO DE BORRACHA
Itaituba nos anos 50 e 60
A pequena e irrequieta Maria de Lourdes,  super ativa na arte de comunicar-se  manifestava sua alegria em conhecer novos ares, e depois de passarem pelo maranhão de seus pais e Belém, rumaram para Santarém a porta aberta para o Alto Tapajós, um dos afluentes do Rio Amazonas rico em espécimes vegetais e não menos rico em ouro branco (hevea brasiliensis). Na foz do Tapajós, deixando Santarém para traz com o seu exuberante encontro das aguas dos Rio Tapajós e Amazonas, os olhos dos retirantes perscrutavam cada ave que alçava voo, cada peixe que saltitava aqui e acola no caudaloso e limpido rio, cada ribeirinho às margens no quotidiano de sua vida de pescador e coletor e da proa empoleirados do batelão singrando o Tapajós, principalmente a pequena Maria de Lourdes  deliciava-se com as boas novas que tanto sonhora. Depois de alguns dias de viagem passando ao largo de alguns aldeamentos de nativos entre esses Alter do Chão, muito, Pinhel, Takuara Boim, fizeram parada de momentos em Fordlandia local de grande investimento de Henry Ford  para a fabricação da borracha; chegaram e atracaram para comprarem viveres em Itaituba, e após um dia de viagem partindo de Itaituba prosseguindo a jornada estavam atravessando a cachoeira de Pimental e São Luiz onde parte do percurso passaram a pé carregando seus pertences e mercadorias dos demais viajantes. Após algumas paradas de dias nas corredeiras do mangabal, para descansarem e resolver problemas mecânicos do batelão, ocasião em que aproveitavam para  pescaram e se admiraram da fartura de peixes chegaram na desembocadura do Rio das Tropas, terra de perambulação dos índios Munduruku  afugentados  dos limites do Rio Crepori, local que se estabeleceram em um pequeno aglomerado humano de onde os “patrões” recrutavam as famílias para a extração do leite de seringa e onde fomentavam o comercio ou escambo de produtos industrializados pela borracha transformada da seiva da hevea brasiliensis.
OS REGATÕES – A PRÁTICA DO ESCAMBO
A pesca era farta, tanto no Tapajós quanto em seus pequenos tributários  e a alimentação tantas vezes escassas no Piauí, no alto Tapajós fazia a alegria da família. Já estava em  mãos o básico para modificarem um pouco a árdua vida, forno de torrar farinha, catitu e a puba se fazia farta também; com suas economias bem regradas, iniciaram fazendo compras em regatões; querosene, café, açúcar, fumo de rolo, específico pessoa contra ofidismo,  panvermina, biotonico  fontoura e emulsão de scott para fortalecer e corar  a petizada  e dias depois já praticavam o escambo tal qual os indígenas, compravam o que necessitavam trocando, por castanhas, cipós titica, sova, mel de abelhas, andiroba, copaíba e um pouco do excedente da borracha já que em  sua maioria já estava contratada pelos patrões.
O impacto inicial não foi tão ruim, apesar de mosquitos, contos de índios hostis, malarias, onças... A aridez do solo onde residiam no nordeste não permitia o ano inteiro colherem tanto milho, mandioca, arroz, cara, batata enquanto que o solo fértil da Amazônia devido os tantos cursos d’águas faziam por certo com que nunca vissem mais o fundo da panela. Todas os problemas inicialmente enfrentados estavam valendo a pena, vez que no nordeste apesar do amor como terra natal a familia e milhares de retirantes não estavam suprindo sequer as necessidades básicas de sobrevivência. O esforço de guerra a qual sua família e tantas outras estavam submetidas na certa traria recompensa já que a desesperança que tinham no futuro na terra nordestina se apagaria logo de suas mentes. O trabalho inicialmente foi bravo, adaptação à região, modificação de costumes, e longas tardes domingueiras sem os compadrios de costumes com os parentes que ficaram, mas dava bem para perceber que novo enredo de suas vidas seria composto e não somente a família da pequena Maria de Lourdes  e sim levas e mais levas, de retirantes nordestinos aspiravam novos rumos de sobrevivencia.Eram esses, mais corajosos que aventureiros  que invadiam a inóspita Amazônia, vindos do Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, fugindo do horror da miséria provocada pela prolongada estiagem. Pessoas tais acostumadas aos desafios da vida,  às dificuldades pela luta por sobrevivência,  combatiam mais uma vez as adversidades da vida no momento, sabendo que valeria o esforço por futuro promissor as hostilidades advindas do contato com a floresta tropical onde cobras, índios, onças e malária era facilmente superados pela vontade férrea do nordestino em alcançar progressos econômicos na Amazônia, onde os “Açudes”  não secavam e as águas eram abundantes e altamente piscosas. Pensavam jamais verem o fundo do alguidar... e nunca veriam.
O CUIDADO DOS IRMÃOS -   JACAREACANGA
Mesmo com destacada sabedoria sobre assuntos contemporâneos Maria de Lourdes, não entendia nada sobre o esforço de guerra que estavam fazendo, não entendia que também sua família estava na guerra e que o Brasil fez  parte na  II Guerra Mundial contra forças  Russas, Italianas etc...  e enquanto os pracinhas brasileiros combateram em Monte Castelo, uma nova guerra era travada em solo amazônida junto com outros soldados da borracha, denominada esforço de Guerra. Nesse ínterim, uma  menina em tenra idade, com quase 13 anos,  que ainda não conhecera carinho algum que não fosse do rústico amor dos pais, e que nas horas que não estava  sob  os cuidados de seus irmãos mais velhos, vivia se admirando dos encantos do caudaloso Rio Tapajós e suas praias de areias brancas onde em suas horas de folga serpenteava  percorrendo as areias brancas, pulando nas águas cristalinas  e rabiscando nas areias, seu nome propriamente, e o lugar que adotara em seu coração e que faria historia como uma das primeiras mestras educadoras da região: Jacareacanga.
A pequena Maria de  Lourdes, e sua família pouco tempo depois  se fixarem na Vila de Jacareacanga, que era um entreposto comercial para garimpos do Tapajós e onde os indígenas Munduruku vez em quando apareciam em suas pequenas canoas trazendo pescados que chamavam de aximã  como, aracus, pintados, jaraquis, tambaqui, tracajás, frutas como  batatas, carás, e farinhas  puba e tapioca, para praticarem o escambo com os comerciantes; levando açúcar, sandálias, isqueiros, querosene, panelas e alguns ja mais afoitos, afeiçoados a aguardente que eram sorvidas em generosas talagadas conforme costumes dos brancos ja copiados pelos indigenas e que os deixavam sonolentos e alvos faceis e preferidos de aventureiros comerciantes que instituiram o assesdio economico à época.
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Em próxima postagem trataremos sobre:
  • A PROFESSORA – FAG – CONTRATADA POR MILITARES.
  • ENSAIO DE GOLPE MILITAR – OS REBELDES VELOSO E LAMEIRÃO.
  • AUDACIOSO PLANO – APOIO AOS REBELADOS.
  • PARTILHA E SOLIDARIEDADE – IDALECIO MENDES BRAGA.
  • O CASAMENTO – AS VIAGENS DE MISSIONÁRIOS.
  • MILA E DOCA SALES – LOURDES E DECO BANDEIRA – CLARA E PEDRO RIBEIRO.
  • RECLAMAÇÃO DA FAMILIA – 1988 MORRE A PROFESSORINHA – A PONTUALIDADE, UM MARCO.
  • O DEPOIMENTO DA ANCIÃ BRAZILINA -  A VERDADE NÃO SE PODE OCULTAR.