Lúcio Flávio Pinto - 18/03/2022

Créditos: Imagem ilustrativa

O mais velho, ao ser apreendido pela polícia, ontem, no dia seguinte ao episódio, confessou que espancaram o amigo e o jogaram numa represa, onde ele morreu afogado. O cadáver foi resgatado pela polícia no local indicado. Os demais meninos confirmaram o depoimento. Não está afastada a hipótese de abuso sexual. A morte pode ter sido para ocultar o cadáver. Os colegas sabiam que a criança nãos sabia nadarEram quatro colegas, moradores da colônia que leva o nome do grande historiador brasileiro Capistrano de Abreu, a 150 quilômetros de Marabá – de 5, 9, 11 e 13 anos. Eles se juntaram, perto das suas casas, para jogar peteca, as bolas de gude. A disputa no jogo teria provocado discussões e desentendimentos. O mais velho decidiu então tirar a roupa do mais novo; os demais o apoiaram.

 

As crianças de 9 e 11 anos serão encaminhadas ao conselho tutelar. O adolescente de 13 anos será apreendido por ato infracional análogo ao crime de homicídio qualificado, à disposição da Vara da Infância da Juventude. Nenhum dos três meninos tinha histórico de violência.

 

Você está chocado? Motivo não falta, como este, referente a episódio ainda mais grave (ou tão grave), de 15 anos atrás. O que fizemos para impedir que essa terrível onda de violência que avança pela Amazônia não chegasse até as crianças?

 

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Um crime amazônico

 

Os dois saíram juntos da escola e seguiram até um terreno baldio afastado. Quando lá chegaram, o mais velho pegou um pedaço de pau e golpeou o outro na cabeça, deixando-o desacordado. Em seguida, abusou sexualmente da vítima inerte. Da própria roupa, tirou uma pequena faca com lâmina de serra e rasgou o pescoço do companheiro até quase decapitá-lo. Cansado, abandonou o corpo no meio da mata rala.

 

Quando o cadáver foi encontrado, no dia seguinte, pouco restava da sua cabeça. Porcos de uma criação doméstica próxima, atraídos pelo sangue, tinham comido parte da cabeça, praticamente a seccionando. Havia perfurações de faca pelo corpo da vítima. Seu matador foi localizado e identificado com vestígios de sangue na roupa e a arma do crime em seu poder. Confessou espontaneamente o crime para o delegado da polícia civil José Casemiro Beltrão.

 

O município de Novo Progresso, no sul do Pará, cresceu em meio a assassinatos violentos. Mas esse, que ocorreu exatamente 10 anos atrás, causou tanta revolta que pessoas se juntaram com o propósito de tirar o assassino da cadeia e linchá-lo. Mesmo sendo um menino de oito anos de idade. Sua vítima, que estudava na mesma escola, tinha apenas três anos.

 

O delegado levou imediatamente o menor ao juiz Celso Marra Gomes, que o interrogou. O menino disse que matou o colega porque não gostava dele. Não foi explícito em indicar um motivo para o crime, mas sugeriu que o outro se recusava a brincar com ele. Reconstituiu seu procedimento sem alterar a voz, como se descrevesse um fato corriqueiro, diante de pessoas que testemunharam o seu depoimento.

 

A frieza eletrizou a população. Quando quase mil pessoas foram em passeata para a porta do fórum pedir justiça, o delegado e o juiz se anteciparam e transferiram o menor para a cidade mais importante da região, Santarém, a 700 quilômetros de distância. Na companhia de um integrante do Conselho Tutelar. Depois de passar por uma unidade da Fundação da Criança e do Adolescente do Pará, o garoto seguiu para destino desconhecido.

 

Dez anos depois do dia 17 de março de 2007, por certo prisma o mais trágico na história de Novo Progresso, o assassino atinge sua maioridade. Sua família e as autoridades que poderiam saber do seu paradeiro ou o desconhecem ou preferem não dar qualquer informação a respeito. Este não é o único mistério numa história de selvageria rara nos registros mundiais.

 

Por que o assassino, com apenas oito anos de idade, decidiu matar seu colega, cinco anos mais novo, usando um pedaço de pau para golpeá-lo na cabeça, desacordá-lo, violentá-lo sexualmente, serrar o seu pescoço e deixá-lo largado na mata, voltando à vida normal até ser descoberto e reconstituir tudo que fez sem demonstrar vacilação ou emoção?

 

A pedido do juiz, contou o que fez: “Dei uma paulada na cabeça. Ele caiu e nem chorou. Fui em casa, peguei uma faca e cortei a cabeça dele”.


Os mais escandalizados tentaram encontrar uma explicação racional. Algum adulto, ou pelo menos pessoa mais velha, fizera tudo aquilo e incriminara o garoto. Mas a família dele ficou imediatamente em estado de choque, sem encontrar explicação para atitude tão agressiva. Sua mãe teve que ser logo socorrida.

 

O menino, apesar de tão novo, era mau, disseram alguns dos seus colegas da escola. Ele tinha um comportamento agressivo dentro da sala de aula. Batia nas crianças menores e dizia palavrões para os professores. Uma vocação de rara precocidade para o crime? Talvez, mas a agressividade relatada não discrepa muito de algumas personalidades mais violentas do que a média.

 

Talvez o cenário tenha influído muito mais do que essa aplicação tardia de teorias lombrosianas. A uma pessoa que conversou com ele na época, logo depois do crime, o garoto disse que já estava acostumado a ver crimes sendo praticados e cadáveres aparecerem em ruas de Novo Progresso.

 

É uma história para arquivar e esquecer de vez ou reconstituí-la, agora que o assassino atingiu a maioridade e pode responder pelos seus atos, enquanto a sociedade está mais atenta à espiral de barbaridade nos homicídios, cada vez mais frequente e mais rotineira. Talvez porque também esteja sendo demasiadamente tolerada, empurrada para debaixo do tapete do comportamento politicamente correto, demarcado por uma consciência histórica pesada há séculos.

 

A criança assassina chega à maioridade sem ter sido responsabilizada pelo crime que cometeu. Segundo a informação fornecida por uma jornalista de Santarém, o agora rapaz mora com o pai, em Itaituba, cidade mais antiga, a segunda principal no vale do Tapajós.

 

Como as demais, de origem recente, a partir da abertura da BR-163, ela se formou pela exploração da borracha e prosseguiu com outro extrativismo, o da garimpagem de ouro, completado por outra forma de extrativismo, a da retirada de madeira, combinado com pecuária, vértices de um crescimento acelerado da migração, das atividades econômicas, do crime e da violência.

 

Como o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe revelar detalhes da vida do menor, do que ele fez, há 10 anos, o que resta é a faca que usou para degolar o colega. A arma é guardada pela conselheira tutelar Ceiza Pantoja, ainda em Novo Progresso. Nenhuma fonte quis confirmar oficialmente se um inquérito policial foi instaurado para apurar o homicídio. O fato virou história. Em geral, na selvagem fronteira amazônica, mais uma desmemoria.