OS MINUTOS FINAIS DE BRUNO E DOM EM SÃO RAFAEL
Comunidade São Rafael em Atalaia do Norte, Amazonas (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Uma semana já se passou desde que Bruno Pereira e Dom Phillips desapareceram no rio Itacoaí, região do Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru. Uma semana em que perguntas se acumulam e poucas respostas foram dadas pelas autoridades, que demoraram a agir. Um pescador está preso – “Pelado” -, investigado por envolvimento no sumiço. Neste domingo (12), a Polícia Federal informou que foram encontrados objetos pessoais do indigenista (um cartão de saúde e uma calça preta) e do jornalista britânico (botas e uma mochila) em uma área de igapó, amarrados em uma árvore. Nos últimos dias, a Amazônia Real refez a trajetória da dupla para reconstituir os minutos finais antes que fossem dados como desaparecidos, quando iam levar provas flagrantes de crimes ambientais para a PF. Na comunidade São Rafael, último lugar no qual Bruno e Dom foram vistos em 5 de junho, as contradições nos relatos ouvidos pela reportagem confirmam que a hipótese de emboscada a mando do narcotráfico é a mais forte até agora.

Por Cicero Pedrosa Neto, da Amazônia Real

Imagem de buscas por Dom Phillips e Bruno Pereira em instalações em terra da base da EVU

Enviado especial à Atalaia do Norte (AM)  

“Ele encostou o barco ali no porto da escola e perguntou se tinha café. ‘Café não tem, mas tem Nescau’, eu disse. Aí ele disse: ‘esse que é bom mesmo’”, relata Alzenira Gomes, 54 anos, a esposa de Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco”. Foram com essas palavras que Alzenira, por volta das 7 horas do domingo 5 de junho, convidou o servidor licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai) e consultor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Bruno Araújo Pereira, 41 anos, e o jornalista britânico Dom Phillips, 57 anos, a aportarem na comunidade ribeirinha de São Rafael. A localidade fica às margens do rio Itacoaí, no município de Atalaia do Norte, na fronteira do Amazonas com o Peru, fora dos limites da Terra Indígena Vale do Javari. Minutos depois dessa conversa, eles desapareceram. Há uma semana o mundo procura pistas para o paradeiro da dupla.

Como o meu marido não estava, ele pediu um pedaço de papel para botar o número dele. Depois disso ele saiu e foi atrás daquele ali
testemunha Alzenira, apontando para Jânio Freitas de Souza, 45 anos, a última pessoa conhecida com quem Bruno falou antes de seu sumiço. Jânio e “Churrasco” chegaram a ser detidos pela polícia como suspeitos do desaparecimento de Bruno na noite de segunda-feira (6), mas foram liberados no dia seguinte após abertura de inquérito.

Líder da comunidade São Rafael Manoel Vitor Sabino da Costa, o “Churrasco”, é tio de Amarildo da Costa de Oliveira, 41 anos, o “Pelado”, pessoa que é a peça-chave das investigações sobre o desaparecimento de Bruno e Dom e que está preso temporariamente no presídio de Tabatinga, cidade vizinha de Atalaia do Norte, na região do Alto Solimões (AM). “Pelado” foi apontado por uma testemunha ouvida pela Amazônia Real com a pessoa que ameaçou Bruno, Dom e mais nove indígenas da vigilância da Univaja no dia 4 de junho, após ser flagrado tentando invadir a terra indígena. Dois homens não identificados que estavam com “Pelado”, também apontaram as espingardas. Dom teria filmado a ação. Bruno levaria a denúncia no dia 6 à Polícia Federal (PF). Até o momento, esses dois homens não foram citados pela PF se eles estão entre as seis pessoas ouvidas pelas investigações, que são divulgadas em notas oficiais à imprensa. 

Neste domingo à noite (12), em outra nota oficial, a PF informou que pertences de Bruno Pereira e Dom Phillips foram encontrados próximos à casa de Amarildo, na comunidade São Gabriel. Nessa mesma área, foi encontrada uma outra embarcação que “aparentemente” pertence a “Pelado”. Antes, no período da tarde, o Corpo de Bombeiros havia informado que uma mochila havia sido encontrada, contendo um notebook e um par de sandálias, mas sem a confirmação de quem pertenceriam.

Segundo a Univaja, a última informação de avistamento do indigenista e do jornalista é deles visitando as comunidades São Gabriel e Cachoeira, que ficam rio abaixo a cerca de 40 minutos de Atalaia do Norte na voadeira rápida. Conforme a testemunha ouvida pela Amazônia Real, no domingo (5), Bruno e Dom deixaram a base da equipe no Lago Jaburu, distante da comunidade São Rafael cerca de 15 minutos pelo rio Itacoaí. Bruno pilotava a lancha com motor 40 HP e dispensou a segurança dos indígenas. 

Rio Itacoai, nas imediações em que Dom e Bruno desapareceram
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Na quinta-feira (9), ao avistar o barco com a equipe da reportagem chegando no trapiche da comunidade São Rafael, Jânio já esperava em uma maloca. Sabia do que se tratava e pareceu disposto a falar sobre a última vez que viu o indigenista e o jornalista. Disse que Bruno chegou alegre e fazendo piada. “Ele passou uns oito minutos lá na casa do ‘Churrasco’. Passou aí na frente e não me viu. Eu até brinquei com ele, dizendo que ele não me viu porque eu sou pequeno”, narra Jânio, dizendo que o indigenista e o jornalista estiveram na comunidade por volta das 7h20 de domingo.

Jânio, que se identificou como presidente da Associação dos Produtores Rurais da Comunidade São Rafael, conta que foi apresentado ao jornalista britânico naquele dia. “O Bruno me disse que o repórter estava fazendo um livro e aí queria saber se o manejo dava resultado aqui”.

Dom Phillips, colaborador assíduo do jornal The Guardian e que realizava pesquisas para um livro com o objetivo de ajudar a salvar a maior floresta tropical do mundo, perguntou sobre o manejo do pirarucu, o peixe-gigante da Amazônia. Jânio lembra de ter falado abertamente sobre o tema: 

A gente mata peixe ilegal, não vou mentir, a gente pesca aí na frente. Mas tem gente que passa também para a área indígena e quem pega a culpa somos nós aqui da comunidade. Foi o que eu disse pra ele.

O “aí na frente” se refere Jânio à Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior do país (atrás apenas da TI Yanomami) com 8,5 milhões de hectares, e que tem sido alvo frequente de narcotraficantes, pescadores e caçadores ilegais, garimpeiros e madeireiros. É a cobiça por essa imensa floresta ainda intacta da Amazônia e onde vivem mais de 6.317 indígenas de 26 povos, incluindo grupos isolados e não contatados, que formam o pano de fundo desse caso ainda sem explicação. “O Pelado é um dos caras mais perigosos da região do rio Ituí. Já deu vários tiros na base e já trocamos tiros com ele. O Pelado é peça fundamental nesse quebra-cabeça, não pode ser solto”, afirmou uma fonte à reportagem, que citou outros nomes: Nei e “Colômbia”; que também estão envolvidos com a pesca ilegal e o tráfico de drogas.                                                              “Colômbia” é o peruano Rubens Villar Coelho, que teria se contrariado com as ações de fiscalização coordenadas por Bruno Pereira, segundo o jornal O Globo. Na tríplice fronteira do Brasil, sabemos que “Colômbia” (Rubens Coelho) coordena o envio de peixe de Letícia para Bogotá, capital colombiana, a partir de uma balsa que opera na Islândia, no Peru. Ele seria também suspeito de ter mandado assassinar Maxciel”, diz outra fonte à Amazônia Real. Mas o peruano não foi ouvido pelas autoridades policiais. “A Funai nunca teve acesso ao inquérito”, disse um amigo de Maxciel.                                                                                  

Em 6 de setembro de  2019, o indigenista Maxciel Pereira dos Santos foi morto com tiros em frente à sua família em Tabatinga. Dias antes, ele tinha recebido ameaças de morte de caçadores por sua atuação em defesa da Terra Indígena Vale do Javari.                                                    

Desde o início do desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira, circulam nomes como “Churrasco”, “Pelado”, “Caboclo”, Jânio e Nei, todos apontados como tendo alguma ligação com o caso. Mas “Colômbia” pode ser a peça que falta nesse quebra-cabeça. Ele possui propriedades no município de Benjamin Constant, também vizinha de Atalaia de Norte, e controla o fluxo de drogas no rio Itacoaí, ua das calhas da TI Vale do Javari mais invadidas por caçadores e pescadores ilegais. “Colômbia” é um traficante peruano que usa da pesca e caça ilegais para retroalimentar o tráfico de drogas e as práticas ilegais que afetam tanto os indígenas quanto os projetos de manejo desempenhados na região.

“Colômbia” seria O “patrão”, apontado por mais de uma fonte ouvida nos últimos dias pela reportagem, que estaria insatisfeito com a atuação do indigenista, por conta de sua atuação no Vale do Javari. É ele quem banca o comércio de tracajás (uma das espécies de quelônios de água doce mais consumidas na região, embora seja ilega), por exemplo, pagando 70 reais por unidade – os pescadores chegam a descer o rio com cerca de 800 tracajás por pescaria.

Conflitos se intensificam


LEIA MAIS, CLICANDO 👉  A Q U I !