INDIGENISTA DA FUNAI MAPEOU ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA PARA A POLÍCIA FEDERAL E O MPF ANTES DE DESAPARECER NO ÚLTIMO DOMINGO

Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo

Bruno Pereira desapareceu no Amazonas no último domingo

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF) de Tabatinga já tinham conhecimento da atuação de uma organização criminosa que atua na pesca e caça ilegal no Vale do Javari há dois meses. Em uma reunião realizada no dia 4 de abril, o indigenista Bruno Pereira, da Fundação Nacional do Índio (Funai), havia feito um mapeamento da área para as autoridades, inclusive com indicação do local e de fotos dos homens que agora aparecem como suspeitos de envolvimento no seu desaparecimento e do jornalista inglês Dom Phillips. Mesmo após as denúncias, nenhuma ação da PF ou do MPF foi feita para investigar as ilegalidades.

 

O jornal O GLOBO apurou que os nomes então apontados por Bruno Pereira ao delegado da PF, Ramon Santos Morais, e da procuradora Aline Morais Martinez, presentes na reunião, também já figuravam como suspeitos no envolvimento da morte de outro servidor da Funai, Maxciel Pereira dos Santos, morto em 2019, em plena luz do dia, em Tabatinga.

 

Maxciel foi assassinado com dois tiros na cabeça na frente de sua mulher, uma semana depois de participar de uma apreensão de mais de 1 tonelada de carne de pescados e caça. A suposta organização teria continuado com a prática ilegal três anos depois da morte do servidor. Até hoje ninguém foi preso ou acusado pelo assassinato.

 

Veja também

Tráfico e garimpo marcam região onde jornalista e indigenista sumiram

 

Governo do Amazonas envia Força Tarefa formada por especialistas em buscas em área de selva para o Vale do Javari onde indigenista brasileiro e jornalista inglês estão desaparecidos há três dias

 

Procurados, PF e MPF não retornaram aos pedidos de entrevista da reportagem.

 

Desde segunda-feira, cinco pessoas já foram ouvidas na condição de testemunhas, mas apenas uma foi presa. Trata-se de Amarildo da Costa de Oliveira, de 41 anos, conhecido como Pelado, preso na terça-feira. 

 

PRESO FOI VISTO EM PERSEGUIÇÃO

 

Policiais militares que prenderam Pelado afirmaram ao GLOBO que a lancha do suspeito foi vista perseguindo o barco do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips logo depois que eles deixaram a comunidade de São Rafael, em Atalaia do Norte. O suspeito foi preso e trazido para a cidade na própria lancha.

 

Testemunhas relataram aos policiais que a embarcação do suspeito, apreendida e trazida com ele até a cidade, passou em alta velocidade atrás de Bruno Pereira e Dom Phillips tão logo eles deixaram a comunidade São Rafael, em uma visita previamente agendada, para que o indigenista fizesse uma reunião com o líder comunitário apelidado de “Churrasco”, que é tio de Pelado, com o objetivo de consolidar trabalhos conjuntos entre ribeirinhos e indígenas na vigilância do território, bastante afetado pelas intensas invasões.

 

Churrasco” foi detido na segunda-feira à noite para prestar esclarecimentos como testemunha e liberado logo depois.

 

Os dois desaparecidos viajavam com uma embarcação nova, com motor de 40 HP e 70 litros de gasolina, o suficiente para a viagem, e 07 tambores vazios de combustível. A lancha de Pelado tem um motor 60 HP e é mais veloz.

 

Os dois chegaram ao local de destino (Lago do Jaburu) no dia 03 de junho de 2022, às 19h25. No dia 05, os dois retornaram logo cedo para a cidade de Atalaia do Norte. No entanto, antes eles pararam na comunidade São Rafael, em uma visita previamente agendada, para que o indigenista Bruno Pereira fizesse uma reunião com o comunitário apelidado de “Churrasco”, que é tio de Pelado, com o objetivo de consolidar trabalhos conjuntos entre ribeirinhos e indígenas na vigilância do território, bastante afetado pelas intensas invasões.

 

Na comunidade São Rafael, a dupla iria conversar com o líder, o “Churrasco”, mas foram recebidos por sua mulher, que ofereceu a eles “um gole de café e um pão”, segundo os vigilantes. Isso tudo ocorreu por volta das 4h do domingo.

 

De acordo com lideranças da Univaja, os dois se deslocaram pelo rio Itaquaí com o objetivo de visitar a equipe de Vigilância Indígena que se encontra próxima à localidade chamada Lago do Jaburu (próxima da Base de Vigilância da Funai no rio Ituí), para que o jornalista visitasse o local e fizesse algumas entrevistas com os indígenas.

 

Às 16h, outra equipe de busca saiu de Tabatinga, em uma embarcação maior, retornando ao mesmo local, mas novamente nenhum vestígio foi localizado. Vale ressaltar que o indigenista Bruno Pereira é uma pessoa experiente e que conhece bem a região, pois foi coordenador Regional da Funai de Atalaia do Norte por anos — afirma o advogado da Univaja, Eliésio Marubo.

 

Bruno Araújo era alvo constante de ameaças pelo trabalho que vinha fazendo junto aos indígenas contra invasores na região, pescadores, garimpeiros e madeireiros. O Vale do Javari é a região com a maior concentração de povos isolados do mundo.

 

Fonte: Extra Online