Por O Globo
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Um estudo inédito publicado na última edição da revista científica Nature, uma das mais relevantes do mundo, mostra que houve ao menos três grandes ondas de migração na ocupação da América do Sul e que os indígenas da região possuem elos de parentesco com os povos originários da Oceania. As descobertas foram realizadas com a análise do DNA de populações atuais com o de fósseis.
A pesquisa foi liderada pela brasileira Tábita Hünemeier, professora e cientista do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Além dela, outros 35 pesquisadores assinam o artigo, com cientistas do Brasil, América Latina, Europa e Estados Unidos.
As três rotas de povoamento da América do Sul
O artigo defende que existiram ao menos três grandes ondas de migração ao longo de milhares de anos destinadas à América do Sul. Para chegar a esta conclusão, os pesquisadores cruzaram o DNA de populações atuais com o de fósseis para traçar rotas.
De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, ainda não há consenso de quando a mais antiga delas aconteceu. Há a possibilidade, ainda em avaliação, de que ela pode ter sido há 15 mil anos. As outras duas foram mais recentes: uma há 9 mil anos, seguinda por uma há 1,3 mil anos.
O estudo mostra ainda que os primeiros habitantes das Américas descendem de um tronco ancestral comum, conhecido como SNA, que apresentava uma assinatura biológica uniforme antes de se diversificar em linhagens distintas pelo continente. Essa conexão profunda é comprovada pela semelhança genética, unindo seres humanos nos Estados Unidos a indivíduos encontrados no Chile e em sítios arqueológicos brasileiros, como os de Lagoa Santa, em Minas Gerais.
Depois, houve uma migração na qual os seres humanos partiram da América Central para o Sul do continente. Povos andinos como os Quéchuas estão entre os descendentes desse grupo. Por fim, a terceira onda ocorreu no período chamado Holoceno Tardio. Essa dispersão foi a principal responsável por moldar a genética da grande maioria dos povos indígenas atuais das terras baixas da América do Sul e de populações ceramistas do Caribe.
O sequenciamento de genoma realizado pelos pesquisadores foi realizado em 128 seres humanos contemporâneos e abrange, dentre diversas populações, povos brasileiros como os Karitiana, Suruí, Xipaya, Guarani e outros.
Ao longo das análises, a equipe liderada por Hünemeier identificou cerca de 1,4 milhão de variantes genéticas novas, jamais registradas nos bancos internacionais de genoma. Em dados brutos, o estudo revelou que cada indígena carrega, em média, aproximadamente 11 mil variantes exclusivas, algo semelhante às populações da Oceania.
Cicatrizes da Colonização
Ainda de acordo com a pesquisa publicada na Nature, foram detectadas assinaturas de um "colapso demográfico" provocado nos últimos cinco séculos. Segundo os cientistas, o grande "motor" dessa mudança foram epidemias, escravidão, destruição de modos de vida e até a instigação de violência entre outros grupos de indígenas.
Nacionalmente, povos como os Karitiana e o Suruí apresentaram perfis de isolamento populacional e casos diversos de endogamia — quando há relacionamentos entre dois seres que compartilham ancestrais comuns — o que levou a uma alta fragmentação de sociedades após o processo colonial.
O estudo também elucida um dos maiores enigmas da arqueologia das Américas: a persistente afinidade genética entre povos da Australásia e grupos indígenas sul-americanos, como os Suruí e Karitiana.
Batizada de ancestralidade "Ypykuéra" — termo tupi que significa "ancestral" — essa assinatura genética de até 3% já estava presente no continente há mais de 10 mil anos, conforme atestam os remanescentes humanos do Sumidouro, em Lagoa Santa (MG).
A pesquisa revela que esse traço milenar não sobreviveu ao tempo por mero acaso, mas sim por oferecer vantagens adaptativas cruciais. Regiões do DNA ligadas a essa herança sofreram seleção natural positiva, auxiliando em funções vitais como a taxa de fertilidade, o desenvolvimento biológico e o fortalecimento do sistema imunológico desses povos frente aos desafios ambientais das Américas.
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