Médico sanitarista Paula Basta, da Fundação Oswaldo Cruz(Fiocruz) apresenta resultados de estudos sobre mercúrio - Créditos: Divulgação/PSA
Um estudo recente liderado pelo médico sanitarista Dr. Paulo Basta, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), revelou dados preocupantes sobre a exposição ao mercúrio entre os povos indígenas Munduruku, da região do Rio Tapajós, no Pará. Segundo os dados preliminares, recém-nascidos Munduruku apresentam níveis de mercúrio no organismo em média 2,5 a 3 vezes acima do limite considerado tolerável, enquanto as gestantes chegam a níveis cinco vezes superiores.
Na pesquisa anterior, não segmentada por idade, constatou-se que 6 em cada 10 indígenas apresentavam níveis elevados de mercúrio, índice que chega a 9 em cada 10 na aldeia mais próxima às áreas de garimpo. Essa contaminação representa um grave risco à saúde, especialmente para mulheres em idade fértil e crianças.
O mercúrio é um metal tóxico que se acumula principalmente no sistema nervoso central. O Dr. Paulo Basta explica que o contaminante é ingerido pelas mulheres através do consumo de pescado contaminado. “O mercúrio passa pela placenta e pode atingir o feto via cordão umbilical, com concentrações no cérebro do bebê que podem ser cinco a sete vezes superiores às encontradas no corpo da mãe”, alerta.
Essa exposição pode causar danos severos ao neurodesenvolvimento infantil, provocando sintomas como tremores, perda de força muscular, dificuldades motoras, problemas de memória e aprendizado, e em casos mais graves, sequelas irreversíveis.
Para enfrentar esse desafio, a Fiocruz implementou um sistema de vigilância comunitária que monitora gestantes e seus bebês desde a gravidez até os dois anos de idade, com o objetivo de avaliar os impactos da exposição pré-natal ao mercúrio no desenvolvimento das crianças.
Dos 130 casos de gestantes monitoradas até agora, 99 deram à luz. Os níveis médios de mercúrio nas gestantes ultrapassam 10 partículas por milhão, cinco vezes acima do limite recomendado pelo Ministério da Saúde, e nos recém-nascidos os níveis são entre 2,5 e 3 vezes maiores do que o tolerável.
Além do impacto ambiental, o garimpo ilegal impõe uma crise grave de saúde pública para os povos indígenas. A contaminação por mercúrio atinge diretamente os direitos fundamentais dessas populações, comprometendo sua qualidade de vida, sua cultura e seu vínculo ancestral com o território.
O combate à invasão de terras indígenas, por meio da desintrusão, é uma prioridade. “A desintrusão dos territórios é fundamental para devolver o usufruto exclusivo aos povos indígenas e para a preservação do meio ambiente”, afirma o Dr. Basta. “Mesmo que o garimpo seja interrompido hoje, ainda teremos que gerenciar os riscos de contaminação por décadas”, completa o especialista.
Em resposta à crise, a Fiocruz lançou, em parceria com o Ministério da Saúde e o Ministério dos Povos Indígenas, um manual técnico para orientar o atendimento a indígenas expostos ao mercúrio. Esse manual auxilia profissionais da saúde que atuam em áreas indígenas a identificar e tratar casos de contaminação.
O governo federal intensificou as ações de desintrusão em terras indígenas como as de Munduruku, Yanomami e outras regiões, visando retirar invasores e desmontar estruturas clandestinas de garimpo. Além disso, há esforços para a recuperação ambiental e para a criação de centros de referência em saúde para esses povos.
Caetano Scannavino, do Projeto Saúde e Alegria, reforça a urgência do tema: “Não podemos normalizar essa situação. É preciso redobrar a atenção, fortalecer a vigilância e garantir a reparação a esse povo guerreiro que tanto protege a floresta e o Brasil”.

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