
ITAITUBA/JACAREACANGA(PA), 07Dez2025' - às 13hs05'
"É um absurdo”, diriam uns.
“Isso não existe”, contestariam outros.
“Desumanidade!”, indignam-se muitos.
“Misericórdia, Senhor…”, sussurram os que vivem o abandono.
“Sacanagem”, resumem, sem rodeios, os desesperados."Vsf fdp" enlouquecem os atolados, desafortunados, desconfiados.
Enquanto isso, mais uma vez, ecoa o discurso oficial: “agora o asfalto sai”, repetem vereadores e até o prefeito retornando de Brasília para a base de suas ações em Jacareacanga, município do sudoeste do Pará, historicamente isolado por um dos trechos mais precários da Rodovia Transamazônica (BR-230) crendo nas mentiras absurdas dos entes federados.
A realidade, porém, impõe-se de forma cruel. Os cerca de 400 quilômetros que ligam Itaituba a Jacareacanga transformam a cidade em um dos territórios mais remotos do país, sobretudo durante o inverno amazônico, quando as chuvas intensas tornam a estrada praticamente intrafegável. É nesse período que o isolamento se revela em sua forma mais severa:
Lama, atoleiros, pontes danificadas e ausência completa de manutenção.
O abandono institucional é evidente. Políticos de âmbito federal raramente aparecem na região, exceto em anos pré-eleitorais, quando visitam Jacareacanga em aviões fretados, contratados, — o chamado “céu de brigadeiro” — sem experimentar a lama, o risco e a angústia vivida pela população local durante a maior parte do ano.
Recentemente, prefeito e vereadores retornaram de reuniões com parlamentares, ministros e lideranças partidárias anunciando novas promessas. O que não se anuncia, porém, é a real possibilidade de colapso logístico, já que a estrada segue sem a manutenção mínima necessária, aquela que deveria ser feita antes do agravamento do período chuvoso.
O presidente da Câmara Municipal, vereador Antônio Goiano, chegou a comemorar publicamente a promessa de asfaltamento da BR-230 no trecho entre Itaituba e Jacareacanga. O entusiasmo, embora compreensível, esbarra na história:
A mesma promessa é repetida desde a década de 1990, desde a emancipação do município. Todos os vereadores que passaram pelo Legislativo local ouviram o mesmo discurso. O resultado continua sendo o mesmo: estrada abandonada, pontes deterioradas e população esquecida. Se nem o básico do básico — como a manutenção preventiva da via e a recuperação de pontes — é realizado, torna-se difícil acreditar que a pavimentação definitiva sairá do papel.
O risco imediato é grave! Caso o trecho se torne totalmente intrafegável, Jacareacanga poderá ficar sem energia elétrica, já que o fornecimento depende de geradores movidos a óleo diesel, combustível transportado exclusivamente por via terrestre. Sem diesel, tudo para: hospital, postos de saúde, farmácias, escolas, creches, prefeitura, Câmara Municipal, comércio, postos de combustíveis e residências. O município corre o risco de mergulhar literalmente na escuridão.
QUEM PAGARÁ POR ISSO!?
A tragédia do abandono se agrava ainda mais quando se observa o cenário ao longo da estrada. Não existe qualquer tipo de sinalização no trecho entre Itaituba e Jacareacanga. O que se vê são cruzes fincadas às margens da rodovia, marcando os pontos onde pessoas perderam a vida em acidentes causados pelas más condições da via. Há também carros calcinados, restos de carrocerias, peças espalhadas e veículos abandonados após panes mecânicas ou atolamentos.
Como não existe nenhuma oficina mecânica ou serviço de socorro ao longo do percurso, muitos condutores são obrigados a deixar seus veículos para trás. Quando conseguem retornar dias depois, encontram apenas carcaças: os veículos são depenados, reflexo direto do abandono, da insegurança e da total ausência do poder público naquele longo e isolado trecho da Transamazônica.
A indignação aumenta quando se observa a linha do tempo histórica. A Rodovia Transamazônica foi inaugurada em 1972, durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, como um projeto grandioso de integração nacional. Mais de cinquenta anos se passaram, e o trecho entre Itaituba e Jacareacanga continua sem pavimentação.
Desde então, o Brasil foi governado por Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e, atualmente, novamente Lula da Silva. Todos passaram. Todos ouviram. Muitos prometeram. Nenhum, até hoje, entregou a pavimentação desse trecho vital.
Assim, a BR-230 permanece como um símbolo de um projeto inacabado, de promessas reincidentes e de um abandono que atravessa gerações. Para Jacareacanga, a Transamazônica não representa integração nem desenvolvimento. Representa isolamento, risco à vida, negação de direitos básicos e a dura constatação de que, mais de meio século depois de sua inauguração, o progresso anunciado ainda não chegou.
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