
JACAREACANGA(PA), 14Mai'2026 às 18hs00' - Uma disputa de mapas entre os Estados do Pará e Mato Grosso, que se arrasta nos tapetes de veludo do Supremo Tribunal Federal (STF), ganhou um novo e decisivo capítulo. A Associação AGRODITO II, que representa os produtores da Gleba São Benedito, em Jacareacanga, protocolou um pedido urgente para entrar na ação. O objetivo? Impedir que o destino de centenas de famílias seja decidido apenas por linhas em um papel, sem considerar a realidade de quem pisa no chão da área.
O documento jurídico arquivado em nossa redação, revela um dado que impressiona: a Gleba São Benedito está a cerca de 400 km em linha reta da sede de Jacareacanga, no Pará. Pior: não existe estrada que ligue diretamente a comunidade ao seu próprio município. Para qualquer necessidade básica, o morador percorre apenas 60 km até Paranaíta, no Mato Grosso.
Na prática, é o estado que reforça o atendimento em:
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Saúde e Educação: Onde as crianças estudam e os doentes são atendidos.
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Logística: Por onde a produção escoa e o comércio acontece.
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Segurança Sanitária: O controle de vacinação do rebanho, vital para a economia local.
A petição da AGRODITO II, assinada pela advogada Lara de Souza Margatto, (Cópia assinada na redação do RP) alerta para um perigo real:
Se o STF decidir a fronteira apenas por critérios históricos de séculos passados, pode criar um "apagão" de serviços públicos. Se a área for confirmada como Pará, mas o governo paraense não tiver como chegar lá com estradas e estrutura, como ficam essas famílias?
Atualmente, o laudo técnico da associação identifica 276 imóveis rurais em uma área de mais de 337 mil hectares. São famílias com Cadastros Ambientais Rurais (CAR) e georreferenciamentos que podem perder a validade se a "canetada" de Brasília não respeitar a ocupação consolidada desde antes de 2008.
O que trará o 21 de maio?
Uma audiência de conciliação está marcada para o dia 21 de maio de 2026. A AGRODITO II quer estar à mesa para garantir que o "plano humano" seja ouvido. Não se trata apenas de limites territoriais, mas do direito à dignidade, à segurança jurídica e ao pertencimento.
Para o jornalismo que exercemos aqui no Tapajós, o caso da Gleba São Benedito é o exemplo máximo de como a burocracia federal, às vezes, é cega para a geografia do interior. Acompanharemos de perto se o STF terá a sensibilidade de ouvir quem realmente guarda a floresta e faz a terra produzir.
A disputa de fronteiras entre o Pará e o Mato Grosso, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sob a Ação Rescisória nº 2.964, deixou de ser um mero debate técnico de cartógrafos para se tornar um barril de pólvora social e ambiental. No centro da questão está a Gleba São Benedito, um território em Jacareacanga que vive um isolamento geográfico crônico e, agora, o temor de uma "invasão institucional" movida pela sanha do agronegócio mato-grossense.
Os números apresentados pela Associação AGRODITO II ao STF revelam o tamanho do abandono: a Gleba está a 400 km de distância da sede de Jacareacanga, sem qualquer estrada que a ligue ao Pará. Para os moradores, o Pará é uma ideia distante; a realidade prática é o Mato Grosso, cujas rotas de acesso colocam a cidade de Paranaíta a apenas 60 km da área.
Esse vácuo administrativo permitiu que o estado vizinho passasse a prestar serviços básicos na região. No entanto, o Mato Grosso é hoje um dos principais motores do agronegócio mundial, onde a busca por "terras e mais terras" é uma engrenagem que nunca sacia o desejo do produtor.
O que as planilhas de produtores e os mapas estaduais omitem é que a Gleba São Benedito é, acima de tudo, solo sagrado e território de vida. A área é complemento de uma zona histórica de perambulação das etnias Munduruku, Kayabi e Apiaká que não conhecem limites territoriais. Mais grave ainda:
A região abriga registros sensíveis e trabalhos contínuos sobre a presença de índios isolados, grupos que dependem exclusivamente da integridade da floresta para continuarem existindo.
A pergunta que ecoa no Tapajós é:
Como o Mato Grosso tratará esses territórios? A "sanha voraz" por novas fronteiras agrícolas muitas vezes não enxerga o limite das reservas ou a ecologia das perambulações indígenas. Se a "canetada" do STF não for cuidadosa, o que se pretende regularizar como imóvel rural pode ser o golpe definitivo sobre os direitos de povos que habitam o Tapajós muito antes de qualquer divisa estadual ser traçada.
Com uma audiência de conciliação marcada para o dia 21 de maio de 2026, o STF tem em mãos mais do que uma briga por limites. Estão em jogo:
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A sobrevivência de grupos isolados: Cujo território não aceita cercas nem monocultura.
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A proteção contra a expansão desenfreada: Onde o agronegócio vê apenas produção, nós vemos cultura e ancestralidade.
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A soberania do Pará: Que precisa provar que pode proteger seu povo e sua floresta, apesar da distância.
A regularização fundiária de 337 mil hectares não pode ser um cheque em branco para a ocupação predatória. O desenvolvimento que não respeita o direito originário não é progresso; é pilhagem. O "Rastilho de Pólvora" acompanhará cada passo desse processo, cobrando que a justiça seja feita com os olhos postos na dignidade humana e na preservação dos nossos povos.
O Prefeito de Jacareacanga vai à luta
Informações de bastidores vindas diretamente da assessoria da prefeitura de Jacareacanga confirmam que o município não assistirá a essa disputa de braços cruzados. O prefeito Valdo do Posto, acompanhado de uma robusta assessoria jurídica e de uma comitiva de políticos das esferas estadual e federal, estará presente na audiência de conciliação.
A missão é clara:
Defender a soberania do Pará e impedir que Jacareacanga sofra uma perda territorial que pode, na prática, "varrer do mapa" uma parte estratégica de sua jurisdição. Essa mobilização política eleva a temperatura do debate no STF, transformando a causa em uma defesa de estado contra o avanço da fronteira agrícola vizinha.





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