
ITAITUBA(PA),21Jan'2026, às 04hs43' O que começou em Santarém como mais um registro da crônica política regional rapidamente ganhou contornos mais graves e se espalhou por toda a região, especialmente em Itaituba. A informação, trazida à tona a partir da estrutura jornalística do respeitado jornalista Jeso Carneiro, revela que o passado eleitoral ainda cobra seu preço, sobretudo quando há indícios de que regras básicas da democracia podem ter sido tratadas como meros detalhes burocráticos.
Os desdobramentos na Justiça Eleitoral, remanescentes do último pleito municipal, lançam luz sobre o financiamento da campanha de Wescley Tomaz (Avante), candidato derrotado na disputa pelo Paço Municipal e que, apesar do revés nas urnas locais, hoje exerce mandato de deputado estadual.
O Ministério Público Eleitoral (MPE) não age por capricho nem por perseguição política: questiona, com fundamento legal, a origem e a legalidade de doações recebidas, apontando indícios claros de que uma apoiadora teria repassado valores incompatíveis com sua capacidade financeira declarada. Em termos simples e diretos: há suspeita de que a lei foi desrespeitada.
QUANDO O DINHEIRO NÃO FECHA, A CONTA CHEGA
Segundo a representação do MPE, a eleitora Luciana Carneiro da Silveira teria doado R$ 8 mil à campanha — sendo R$ 6,5 mil em transferências financeiras diretas e R$ 1,5 mil em doação estimável, modalidade muitas vezes utilizada como subterfúgio para maquiar gastos.
A legislação eleitoral é clara, objetiva e conhecida por qualquer cidadão minimamente informado: ninguém pode doar mais do que 10% de seus rendimentos brutos declarados no ano anterior à eleição. Não se trata de interpretação dificil de entendimento, mas de regra simples.
O problema, segundo o Ministério Público, é que os números não fecham. Informações preliminares indicam que a doadora não declarou renda suficiente em 2023 que justificasse, de forma legal, o montante repassado à campanha.
Quando a matemática eleitoral não fecha, a suspeita deixa de ser política e passa a ser jurídica.
Diante desse cenário, o MPE pediu a quebra do sigilo fiscal da doadora — medida dura, sim, mas absolutamente legítima quando há indícios de irregularidade.
A DECISÃO DO JUIZ: CAUTELA, MAS SEM CONDESCENDÊNCIA
Ao analisar o pedido, o juiz Wallace Carneiro de Sousa, titular da 34ª Zona Eleitoral de Itaituba, adotou uma postura que merece destaque: prudente, técnica e firme.
O magistrado indeferiu, por ora, a quebra do sigilo fiscal, deixando claro que se trata de uma medida extrema, a ser utilizada apenas quando não restarem outros meios de prova. Contudo — e aqui está o ponto central — não fechou os olhos para a gravidade do caso.
Em decisão oficializada no dia 19, o juiz determinou que a doadora fosse formalmente notificada e lhe concedeu o prazo de cinco dias para apresentar documentos que comprovem a origem e a legalidade do dinheiro doado.
Mais do que um simples despacho, a decisão traz um aviso inequívoco.
TRECHO DA DECISÃO (COM PESO JURÍDICO)

Imagem extraída da web - Dr, Wallace C. Sousa
“Indefiro, por ora, o pedido liminar de quebra do sigilo fiscal, notadamente por se tratar de medida extrema, que somente deve ser deferida quando não houver outro meio de prova.
(…) Fica a representada advertida de que a omissão na entrega dos referidos documentos, ou a apresentação destes de forma insuficiente, poderá ensejar o deferimento da quebra do sigilo fiscal.”
Juiz Wallace Carneiro de Sousa
34ª Zona Eleitoral de Itaituba
Processo nº 0600116-79.2025.6.14.0034
DEMOCRACIA NÃO COMBINA COM ARRANJOS VICIADOS
Na prática, a Justiça deu à doadora a chance de explicar o inexplicável, apresentando sua Declaração de Imposto de Renda de 2023 ou outros comprovantes de rendimentos, inclusive isentos. Trata-se do respeito ao devido processo legal.
Mas o recado é cristalino: quem não comprovar, responderá.
A omissão, o silêncio estratégico ou a tentativa de empurrar explicações frágeis podem resultar, sem rodeios, na quebra do sigilo fiscal.
A fiscalização das contas de campanha não é perseguição — é defesa da democracia. Artifícios financeiros, arranjos viciados e doações incompatíveis com a realidade econômica desequilibram o jogo eleitoral, ferem a igualdade de chances entre candidatos e afrontam diretamente o eleitor.
Se confirmadas irregularidades, especialmente aquelas que configurem abuso de poder econômico, as consequências podem ser severas, alcançando não apenas doadores, mas também beneficiários diretos das práticas ilegais.
Até o momento, O SILÊNCIO DA DEFESA DO CANDIDATO WESCLEY TOMAZ, E DA DOADORA FALA ALTO
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