
Por razões de ordem cultural e dinâmica social ao longo dos séculos, os Munduruku se espalharam por uma ampla área geográfica, distribuindo sua significativa densidade demográfica por todo o curso do rio Tapajós e de seus principais formadores, os rios Juruena e São Manoel. A presença desse povo também alcançou regiões do estado do Amazonas.
No Amazonas, os Munduruku vivem principalmente na região sul do estado, com presença marcante em áreas de floresta e às margens de rios, incluindo o rio Canumã, nos municípios de Borba e Nova Olinda do Norte. Uma das áreas mais conhecidas é a Terra Indígena Coatá-Laranjal, situada parcialmente no município de Borba.
Estima-se que a população total do povo Munduruku, considerando os estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso, esteja entre 14 mil e 17 mil pessoas. Embora a maior concentração populacional permaneça no oeste do Pará, especialmente na bacia do rio Tapajós, existem aldeias e territórios consolidados também no Amazonas.
Ao longo do tempo, movimentos internos e processos culturais ocasionaram divisões entre diferentes grupos familiares. Em algumas regiões do baixo Tapajós, ocorreram também processos de mestiçagem entre povos indígenas de diferentes etnias. Mesmo diante dessas transformações, comunidades como as de Takuara e Bragança mantiveram viva a identidade Munduruku, preservando costumes, tradições e a memória ancestral de seu povo.
Os Munduruku dessas comunidades tornaram-se conhecidos por sua forte resistência na defesa de seus territórios e de sua cultura.

Foi no início dos anos 2000 que ocorreu um episódio marcante nessa trajetória. À época, exercendo a função de Administrador Regional da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) em Itaituba, recebi na sede da administração a visita de um homem que se apresentou como indígena e que havia vindo convidar-me para uma reunião no aglomerado humano conhecido como Takuara, localizado na margem direita do rio Tapajós municipio de Belterra.
Na ocasião, aquelas famílias afirmavam pertencer à etnia Munduruku e reivindicavam o reconhecimento antropológico de sua identidade indígena.
Após o encontro, viajei a Brasília e solicitei à presidência da FUNAI a formação de um Grupo de Trabalho com a finalidade de realizar os estudos de identificação daquela comunidade. Os técnicos enviados posteriormente reconheceram, durante os trabalhos de campo, os elementos históricos, culturais e antropológicos que confirmavam a identidade Munduruku daquele povo.
Desde então, o povo Munduruku de Takuara aguarda as etapas formais de delimitação, demarcação e regularização fundiária de seu território tradicional.
Hoje, após anos de luta e perseverança, esse processo avança com um momento histórico: a chegada de uma equipe responsável pela demarcação física da área, motivo de grande celebração para a comunidade.
Recordo-me com emoção de dois irmãos marcantes dessa história: Guilherme e Assis. Assis, que já partiu para a morada espiritual, era reconhecido como guardião dos ritos e da cultura ancestral. Guilherme, mesmo marcado pelo tempo e pelas dificuldades da longa luta pelo reconhecimento de seu povo, tornou-se o xamã da aldeia recendo essa herança de seu pai e lider maior daquele povo Laurelino.
O xamã é o líder espiritual e curador ancestral, responsável por intermediar a relação entre o mundo material e o espiritual. Por meio de rituais, cantos, instrumentos tradicionais e elementos da natureza, ele busca promover a cura física, mental e espiritual da comunidade, preservando a sabedoria transmitida pelos antepassados.
Não sei se Guilherme ainda possui a saúde e a disposição necessárias para continuar exercendo plenamente essa importante missão espiritual, mas sua presença permanece profundamente respeitada.
Nesta semana, um importante membro da comunidade Munduruku de Takuara enviou à redação do blog Rastilho de Pólvora uma mensagem emocionante relatando o momento histórico vivido pela aldeia:

“Boa noite a todos e todas do nosso território Munduruku Takuara. Hoje o dia foi muito gratificante, entre emoção e lembranças dos nossos parentes que já fizeram a passagem e que lutaram por esse momento da demarcação da nossa terra. Para os que continuam na luta, este momento será inesquecível. Aproveito para agradecer a cada um desses guerreiros e guerreiras que estão juntos vivendo esse momento único. Hoje as placas foram fixadas na margem da BR-163. Muita emoção. As imagens falam o que sentimos.”
Ao final da mensagem, acrescentou ainda palavras de reconhecimento:
“WALTER, VOCÊ FAZ PARTE DESSA VITÓRIA!”
Compartilho também essa alegria com outras pessoas que contribuíram para essa caminhada, entre elas o Frei Florêncio, Pe. Edilberto, Floriene e outros integrantes da dedicada equipe liderada por Florêncio Vaz defensores inconteste da causa indigena e minorias.
Da funai divido essa vitoria com Ivanildo Viana Rocha, Maria dos Anjos Verde indigenistas de primeira hora que ja se encontraram com certeza com o Cacique Geral do Povo Munduruku Kabá Biboy o Xamã Mimi Akay, nas savanas celstiais.
Quando tomei conhecimento dessa vitória, sendo neste 11 de março, senti uma emoção ainda mais profunda. A data já é especial em minha vida por marcar o aniversário de nascimento de minha querida irmã, Wânea Tertulino que tanto me apoiou na luta em defesa dos indígenas na Funai.
Nesse dia, porém, a alegria ganhou um significado ainda maior: a vitória de um povo!. Confesso que me emocionei profundamente. Chorei!
