ITAITUBA/PA, 27Jul'2026 às 07hs38' - Na política, há sonhos que mobilizam multidões e há projetos que desafiam a engenharia, a economia e, principalmente, a lógica. A tão propalada ponte ligando Itaituba a Miritituba, transformada em bandeira pelo pré-candidato a deputado federal Filho Nunes, enquadra-se perfeitamente nessa segunda categoria. O empreendimento, que há décadas alimenta o imaginário da população do Tapajós, voltou ao debate eleitoral como se bastasse boa vontade para retirar do papel uma obra bilionária, cuja execução depende de planejamento, recursos federais e uma sucessão de etapas técnicas e ambientais.
Se a construção da ponte já parece uma missão de elevada complexidade, talvez ainda mais difícil seja a tentativa do deputado estadual Wescley Tomaz de reconstruir sua força política em Itaituba. Depois de um mandato considerado discreto por parte significativa da opinião pública, o parlamentar entra na pré-campanha diante de um dos maiores desafios de sua trajetória: convencer o eleitor de que merece permanecer na Assembleia Legislativa.
É justamente nesse contexto que surge a aproximação com Filho Nunes. Para muitos observadores da política regional, a parceria representa mais uma necessidade eleitoral do que uma convergência de projetos. Wescley precisa de um cabo eleitoral competitivo; Filho Nunes necessita de estrutura política e visibilidade para viabilizar sua candidatura à Câmara Federal. A matemática parece simples, embora o resultado esteja longe de ser garantido.
Reeleger-se nunca foi tarefa fácil. O eleitor costuma cobrar resultados concretos, presença política e defesa dos interesses da região. Quando essas credenciais não aparecem com a intensidade esperada, o caminho até as urnas torna-se ainda mais pedregoso. Em Itaituba, não são poucos os que afirmam que Wescley Tomaz enfrenta dificuldades para reunir uma militância capaz de empolgar uma campanha majoritária. Seus adversários chegam a dizer que o parlamentar teria dificuldades até mesmo para organizar um grande comício sem recorrer aos novos aliados políticos que trazer de Belèm.
Outro fator que alimenta o debate é a mudança de posicionamento político atribuída ao deputado. Para seus críticos, Wescley percorreu um longo caminho entre o campo da direita e alianças hoje identificadas com setores totalmente à esquerda do espectro político. Essa movimentação é interpretada como uma tentativa de ampliar seu espaço eleitoral diante da redução de sua base tradicional.
Mas é o projeto da ponte que desperta as observações mais curiosas. Filho Nunes apresenta a ligação entre Itaituba e Miritituba como símbolo do desenvolvimento regional. O problema é que, segundo engenheiros, especialistas e até observadores menos técnicos, uma única ponte dificilmente resolveria toda a logística necessária para integrar adequadamente os dois lados do rio e acomodar o intenso fluxo de veículos de carga.
Aliás, há um detalhe que talvez ainda não tenha sido devidamente explicado aos eleitores:
No projeto sonhado por Filho Nunes parece ser imperioso incluir uma segunda ponte. Sim! outra ponte. Não me perguntem o porquê. Apenas aceitem que, na engenharia política apresentada até agora, uma ponte parece não bastar. Afinal, quando se trata de promessas eleitorais, a imaginação costuma atravessar rios muito maiores que o Tapajós.
No fim das contas, a ponte de Filho Nunes poderá continuar sendo apenas um belo desenho sobre o papel, enquanto Wescley Tomaz enfrenta sua própria travessia. A diferença é que, para cruzar o rio, basta construir uma ponte. Já para atravessar uma eleição, é preciso convencer milhares de eleitores — e essa engenharia costuma ser muito mais complexa do que qualquer obra de infraestrutura.

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