Em ação de resistência, Povo Munduruku retira draga de garimpo de território no rio Tapajós, no Pará
Cerca de 20 indígenas participaram da mobilização na aldeia Patoazal; após diálogo com lideranças, garimpeiros deixaram o local de forma pacífica
Cerca de 20 indígenas do povo Munduruku participaram de uma ação de proteção territorial para retirar uma draga que, segundo as lideranças, atuava com garimpo dentro do território Munduruku, na região do rio Tapajós, no Pará. A mobilização, que ocorreu no dia 23 de agosto, partiu da aldeia Patroazal e contou com a participação do cacique Luciano Saw, professores, mulheres e outros integrantes da comunidade, incluindo indígenas da região do rio Cururu. Ao chegarem ao local onde estava a estrutura utilizada na atividade garimpeira, as lideranças conversaram com os trabalhadores que operavam a draga.
Durante o diálogo, foi firmado um acordo para que os garimpeiros deixassem o território. A saída ocorreu de forma pacífica, sem confronto direto entre os indígenas e as pessoas que estavam no local.
Para os Munduruku, a ação integra as estratégias de resistência e proteção do território diante da presença de atividades consideradas ilegais e dos impactos provocados pela exploração mineral sobre os rios e a floresta. A comunidade afirma que o garimpo representa uma ameaça à qualidade da água, aos peixes, à biodiversidade e aos modos de vida tradicionais diretamente relacionados ao rio Tapajós e seus afluentes.
Território pressionado pelo garimpo
A pressão do garimpo sobre os territórios indígenas se estende por diferentes áreas da Amazônia. Levantamento do Greenpeace Brasil aponta que as terras indígenas Kayapó e Munduruku, no Pará estão entre as mais atingidas pela atividade no país.
Na TI Kayapó, a área acumulada impactada pelo garimpo ultrapassa 15,4 mil hectares, enquanto, na TI Munduruku, mais de 7 mil hectares de floresta e cursos d'água já foram afetados. Somadas à Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, as três áreas acumulavam mais de 26 mil hectares atingidos pela mineração. Somente em 2023, o avanço do garimpo nas três terras indígenas devastou, em média, cerca de quatro hectares por dia, segundo análise de imagens de satélite divulgada pelo Greenpeace.
Território pressionado pelo garimpo
A retirada da draga ocorre em um território historicamente pressionado pela exploração de ouro. Nas últimas décadas, o garimpo se tornou uma das principais ameaças enfrentadas pelo povo Munduruku na região do Tapajós. A atividade garimpeira se intensificou na região a partir da segunda metade do século XX, especialmente depois da construção da rodovia Transamazônica, em 1972. Entre as décadas de 1970 e 1990, a exploração aurífera ganhou força em diferentes áreas da bacia do Tapajós.
Ao longo dos anos, comunidades Munduruku passaram a denunciar os impactos ambientais e sociais associados à atividade. A defesa territorial também passou a ocupar espaço central nas organizações indígenas criadas pelo povo, que realizam mobilizações, fiscalizações e ações de proteção da terra. Além do garimpo, os Munduruku enfrentam pressões relacionadas a projetos de infraestrutura, hidrelétricas e propostas de transformação do Tapajós em corredor hidroviário para grandes embarcações.
Leia mais em: APIB denuncia articulação do lobby mineral para avançar sobre Terras Indígenas no Brasil
Resistência histórica no Tapajós
Os Munduruku pertencem à família linguística Munduruku, do tronco Tupi, e se autodenominam Wuy jugu. Historicamente, ocuparam uma extensa região do Vale do Tapajós, território que chegou a ser conhecido como Mundurukânia pela forte presença do povo.
Atualmente, comunidades Munduruku estão distribuídas principalmente pelos estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso. No Pará, estão presentes ao longo da calha e dos afluentes do Tapajós, em municípios como Santarém, Itaituba e Jacareacanga.
A relação com os rios permanece central para a organização social e econômica das comunidades, especialmente por meio da pesca, agricultura, coleta de frutos e outras práticas tradicionais. Diante do avanço de atividades externas sobre esses territórios, a proteção da floresta e dos cursos d'água tornou-se uma das principais frentes de mobilização contemporânea do povo.

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se