OS SENHORES DOS VENTOS, SUSTOS E DAS CICATRIZES: A SAGA DO SACRIFÍCIO E DA AUDÁCIA DOS PILOTOS TERTULINO, SOBRINHOS E PRIMOS
"AONDE EU VOU, DEUS VEM COMIGO E SE UM DIA EU NÃO VOLTAR SIGNIFICA QUE EU FUI COM ELE" - Autor desconhecido
ITAITUBA(PA), 23Mai12026 às 02h55' - As lendas da paixão, do amor, da razão e do coração pela aviação, nasceu em mim. Sonhei o mais alto sonho dos grandes sonhos do sonho de subir, mas quem desfrutou da alegria de voar foram eles os ÁGUIAS da minha família. Irmãos, sobrinhos, primos, tão admirados por suas perícias na arte de sonhar como Ícaro. A trágica morte do piloto Clodson Vale que foi reduzido à cinzas em um acidente trágico, integrante de uma família numerosa de pilotos que estou registrando em rascunhos para um livro me demoveu da ideia de pensar em alçar voos pela Amazônia. Foi terrível e frustrou os sonhos de continuar sonhando.
Quem olha para a imensidão verde da Amazônia, recortada pelas curvas sinuosas e imponentes dos nossos rios, logo compreende que aqui as distâncias não são medidas em quilômetros, mas em tempo, coragem e, não raro, em sacrifício. No coração do Tapajós e nas fronteiras isoladas deste imenso país, o céu é a nossa única estrada confiável.
É nessa imensidão azul que se escreve a saga dos pilotos da família Tertulino. Mas não se engane o leitor achando que essa é uma história feita apenas de glórias românticas e do prazer de voar. A aviação na Amazônia cobra um preço alto, muitas vezes pago em sangue, dor e uma resiliência que desafia a própria lógica humana.
Falar sobre essa dinastia de aviadores é falar de Wanderly Tertulino. Em 1987, os céus da floresta testaram os limites da sobrevivência quando ele comandava o monomotor de prefixo PT-KPC. Em pleno voo sobre a mata fechada e traiçoeira, uma das pás da hélice do avião ruiu. O que se seguiu foi o pior pesadelo de qualquer piloto:
A queda livre em direção ao tapete verde da selva. Wanderly sobreviveu ao violento impacto, mas o preço foi severo. O acidente lhe causou graves fraturas no rosto e no braço esquerdo. Devido a uma lesão na coluna cervical, perdeu totalmente a mobilidade do braço e, parcialmente, os movimentos da perna. Wanderly não apenas sobreviveu à floresta; ele renasceu dela, carregando no próprio corpo as marcas definitivas do heroísmo que a aviação amazônica exige.
A história da família nos céus também é marcada pelo luto e pela saudade de quem deu a vida e a saúde pela profissão. Lembramos aqui, com profundo pesar, do sobrinho Thiago Macuxi morto em uma acidente automobilístico do cunhado Milson. Ele foi outro gigante que sentiu na pele o peso do perigo nas alturas, ficando paraplégico após um grave acidente aéreo. Milson nos deixou na época difícil da pandemia por profundas sequelas que carregava no corpo e na alma, mas seu nome e seu sacrifício permanecem gravados na cabeceira da pista da nossa memória familiar. Como diria meu filho Diogo em pranto na morte e exéquias de seu tio e Padrinho Milson:
MORRE O HOMEM, NASCE A LENDA!
diria Boldrin e hoje com certeza está lá em cima, ensinando anjos a voar
É esse passado de gigantes, feito de carne, osso, superação e cicatrizes, que pavimentou o caminho para os que continuam no manche. A tradição segue firme e forte na ativa com os comandantes Gonçalo e Thales. Primo e sobrinho que herdaram a coragem do clã, eles enfrentam diariamente a rotina dos voos regionais, mantendo os motores aquecidos e honrando o sobrenome a cada decolagem. Ao lado deles, o comandante Walterley na ativa e Walterlan Tertulino ensaiando se aposentar, também somam sua experiência a essa jornada.
E o combustível dessa paixão não acabou. O manche continua sendo passado adiante. A nova geração, representada por Wilton, Vítor Brandão Azevedo, Igor, Iago, Thales e Ricardo Tertulino, assume hoje o mesmo compromisso. Eles carregam no sangue o DNA de quem não tem medo da altura e, na mente, as lições de quem sabe que o céu da Amazônia não perdoa erros, mas acolhe os bravos.
Mas o chamado dos céus na nossa família não escolhe gênero; ele pulsa no peito de todos nós. Prova disso é a minha filha, Roberta Tertulino. Com a ousadia que carrega no sobrenome, Roberta idealizou também enveredar e ir para uma escola de aviação. Contudo, as asas da realidade às vezes nos obrigam a planar com cautela. Diante do nítido declínio dos voos e das mudanças econômicas na Amazônia nos últimos anos, a prudência familiar falou mais alto, e Roberta foi demovida da ideia por nós. O projeto foi guardado no hangar do coração, mas a sua iniciativa permanece como prova de que o desejo de desbravar o azul continua vivo em nossa mente e em nossas melhores intenções.
Para o nosso Rastilho de Pólvora, documentar essa trajetória é um dever de justiça. Os pilotos da família Tertulino e seus parentes agregados pelos laços fraternais e de profissionalismo nunca foram apenas condutores de máquinas; são pontes humanas, linhas de vida que salvam doentes, transportam esperança e encurtam o isolamento que a negligência geográfica nos impõe.
Aos que carregam as cicatrizes da jornada, aos que já partiram deixando saudades, aos que idealizam o amanhã e aos que permanecem na ativa sustentando o voo: a nossa eterna reverência. Que os ventos lhes sejam sempre favoráveis e que o teto esteja sempre aberto. Porque voar na Amazônia é para muitos um desafio, mas para os Tertulino e parentela, é o destino.
REMENDO RP
Nunca esqueço de homenagear meu irmão Wanderly e que esta homenagem atemporal sirva para laurear também os ÁGUIAS da minha familia. Sobre meu irmão Wanderly que sofre apesar de muitos anos do episódio que marcou nossas vidas, apesar de inúmeras cirurgias, com as sequelas profundas do terrível desastre. - Hoje pensei muito nele, que vive no aconchego de sua familia (esposa e filhos) e que tem no coração uma vontade incontida de alçar voos nem que seja por breve tempo. -Isso não é facil meu irmão, a moçada, nossos parentes estão cuidando dos planos de voo. Voce saiu de rota por algum tempo, mas nós o encontramos.

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