Crianças munduruku brincam no rio Kabitutu, na aldeia Katõ - - Créditos: Lalo de Almeida/Folhapress
Como um ritual da infância, as crianças mundurukus têm, a cada dia, dois encontros marcados com o rio Kabitutu.
O relógio marca 12h, início de uma tarde abafada e quente de um setembro amazônico -o calor e a secura dos rios, nesse ciclo vazante na floresta, são cada vez mais de extremos. Centenas de crianças surgem juntas do coração da Katõ, a maior aldeia da porção da TI (Terra Indígena) Mundurucu que gira em torno do rio Kabitutu.
A calma com que percorrem o caminho até o portinho da aldeia contrasta com o ritmo acelerado das brincadeiras no leito do rio. O banho no Kabitutu, um rio com água barrenta, enlameada e de aparência pastosa, em decorrência da terra revirada em garimpos de ouro no território, tem barulho e euforia. O ritual se repete a partir das 18h. E assim é todos os dias.
Aldeia adentro, um grupo de três crianças mundurukus não vive a experiência do Kabitutu. Elas têm “retardo mental grave”, “atraso do desenvolvimento psicomotor”, “transtornos globais de desenvolvimento”, como consta em prontuários que registram os atendimentos médicos feitos.
As meninas não conseguem andar, se sentar, falar. Passam os dias na rede. Algumas noites são de choro contínuo. Os pais buscam resposta para o quadro de saúde das filhas. Recorrem a raízes para o alívio da dor física. Vão a pajés da Katõ e de aldeias vizinhas. O entendimento é que o pajé pode enxergar o que se passa no corpo das crianças.
“Ele faz um trabalho para tirar a doença”, dizem os familiares de uma das três meninas, a mais velha, de 7 anos.
A prima, de 4, esteve com um neurologista em Itaituba (PA). “Encefalopatia não especificada”, anotou o médico. Os pais da criança mais nova, de 2 anos, buscaram um pajé em outra aldeia e de lá seguiram para Santarém (PA), em busca de suporte fisioterápico. Eles já estiveram na cidade antes, por dois meses seguidos, num universo bem distinto -e bem distante- do da Katõ.
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REMENDO RP
A ATIVIDADE GARIMPEIRA DAS TERRAS INDIGENAS DOS MUNDURUKU FOI TODA DESMOBILIZADA NO ALTO TAPAJÓS - ESSA NOTICIA ATRIBUIDA À FOLHA DE S. PAULO SE MOSTRA IMPRECISA E/OU INEXATA.
