A trajetória de resistência e ressurgimento dos Munduruku no Baixo Tapajós
Por/ Walter A. Tertulino
TAKUARA/BELTERRA(PA), 21Ago'2026 às 19hs23' - Desde tempos imemoriais, os Munduruku, povo pertencente ao tronco linguístico Tupi e falante da língua Munduruku, têm sua história profundamente ligada aos rios, às florestas e às terras que tradicionalmente ocupam. Atualmente, com uma população estimada em cerca de 18 mil pessoas, concentram-se majoritariamente na região do Alto Rio Tapajós, em conexão com os rios formadores dessa importante bacia, entre eles os rios Teles Pires e Juruena.
A organização social dos Munduruku sempre esteve estreitamente relacionada às condições naturais de seu território e aos modos tradicionais de sobrevivência, baseados na caça, na pesca, na coleta e, posteriormente, também em outras formas de produção. Esses elementos não representam apenas meios de subsistência, mas integram um conjunto de práticas culturais que ajudam a preservar a identidade e a memória coletiva do povo Munduruku.
Habitantes tradicionais das barrancas do Tapajós, de suas nascentes e proximidades, além das margens dos diversos tributários que deságuam no rio — denominado Idixiri na língua Munduruku —, os indígenas estabeleceram numerosos aldeamentos ao longo de seu território. Entre os principais, com expressivo número de habitantes, destacam-se Sai Cinza, Karapanatuba, Katõ, Apompê, Missão Cururu e Aldeia Teles Pires, já na confluência com territórios tradicionalmente ocupados por indígenas da etnia Kayabi.
Ao longo dos tempos, entretanto, fatores relacionados às transformações sociais, às pressões externas e às dificuldades impostas pelo contato com a sociedade não indígena e até com crendices relacionada à cultura, fizeram com que muitas famílias se afastassem dos grandes centros habitados pelos Munduruku no Alto Tapajós. Muitas delas se espalharam rio abaixo, permanecendo, em grande parte, às margens do Tapajós, onde continuaram a desenvolver atividades tradicionais como a coleta, a caça e a pesca ao longo da calha do rio, em direção à sua foz.
Esse processo de dispersão, porém, teve consequências profundas. Muitas famílias, pelo simples fato de serem indígenas, passaram a enfrentar situações de discriminação e preconceito. O afastamento de seus grupos de origem e a necessidade de adaptação à sociedade envolvente fizeram com que algumas delas, ao longo das gerações, perdessem parte de seus hábitos, costumes e referências culturais. Até mesmo a dificuldade de falar o português, em razão da preservação de sua língua tradicional, tornou-se motivo para práticas discriminatórias. A breve diferença de idiomas decidia o dominador e o dominado na relação com a população envolvente.
Assim, o deslocamento de famílias Munduruku pelo território não pode ser compreendido apenas como uma mudança geográfica. Trata-se também de um processo que atingiu diretamente a identidade cultural, a organização comunitária e a relação dessas populações com suas terras tradicionais. A perda ou o enfraquecimento de práticas culturais não significou, contudo, o desaparecimento da identidade Munduruku. Em muitos casos, a memória familiar, os costumes, os vínculos com o território e a consciência de pertencimento permaneceram vivos, ainda que de maneira silenciosa e fragmentada.
Nesse processo de dispersão, a presença Munduruku ultrapassou as áreas tradicionalmente conhecidas do Alto Tapajós e de seus tributários, alcançando também as savanas e planícies que fazem limite com terras do atual Estado de Mato Grosso.
É nesse contexto histórico que surgem povoados contíguos à cidade de Itaituba, localizados nos dois extremos da sede do município, posteriormente reconhecidos pela Funai como Praia do Índio, Mangue e Km 45. Esses núcleos passaram a representar importantes referências para famílias indígenas que, durante muito tempo, permaneceram afastadas dos grandes aldeamentos Munduruku.
Já na década de 1990, precisamente entre 1996 e 1997, o contato com pessoas e comunidades que também habitavam as margens do Tapajós, já no município de Belterra, trouxe à tona uma realidade que durante muito tempo permaneceu pouco conhecida. Os aglomerados humanos de Takuara, Pini, Marai e suas adjacências passaram a reivindicar, de maneira cada vez mais organizada, o reconhecimento de sua identidade e de seus direitos.
A busca não se limitava ao reconhecimento formal de uma identidade étnica. Estava relacionada a necessidades concretas: educação adequada, atendimento à saúde, preservação de seus costumes e, sobretudo, garantia territorial para a sobrevivência das comunidades. O reconhecimento de sua condição indígena passou a representar, portanto, não apenas uma afirmação cultural, mas também a possibilidade de assegurar direitos fundamentais e preservar uma história que corria o risco de ser apagada pelo processo de dispersão e assimilação.
Foi nesse cenário que essas comunidades passaram a se apresentar de forma mais organizada como pertencentes à etnia Munduruku, muitas vezes sendo identificadas como grupos Munduruku ressurgidos. Com o apoio da Funai, então responsável pela administração regional indigenista de toda a região, iniciou-se um processo de discussão e encaminhamento para o devido reconhecimento dessas comunidades.
Na época, o administrador regional da Funai, Water Azevedo Tertulino, com a anuência da Presidência da instituição, determinou a constituição de uma equipe de antropólogos para realizar estudos sobre os povos indígenas do Baixo Tapajós.
O trabalho desenvolvido pela equipe permitiu identificar diferentes comunidades indígenas existentes na região e constatou a presença de um núcleo humano formado por Takuara e suas adjacências, cuja origem Munduruku foi apontada no processo de investigação antropológica.
A partir daí, começou uma nova etapa: a luta pela garantia de suas terras.
Para aquelas comunidades, o reconhecimento de sua identidade não representava o fim de uma trajetória, mas o início de uma caminhada ainda mais desafiadora. Reivindicar o território significava recuperar uma parte da própria história, reafirmar vínculos ancestrais e garantir às novas gerações o direito de permanecerem ligadas à cultura, à memória e aos espaços que seus antepassados ajudaram a construir.
A história dos Munduruku do Baixo Tapajós, portanto, é também uma história de resistência. Famílias que durante décadas enfrentaram dispersão, preconceito e dificuldades para manter seus costumes voltaram a afirmar publicamente sua identidade. O chamado “ressurgimento” não significa o nascimento de um novo povo, mas a retomada de uma identidade que permaneceu viva na memória das famílias, mesmo diante das pressões para que fosse esquecida.
A luta pela terra tornou-se, dessa maneira, inseparável da luta pela própria existência cultural. Reconhecer o território significa reconhecer também a história, a língua, os costumes, os vínculos familiares e as formas tradicionais de organização dessas comunidades.
A trajetória iniciada naquele período ainda produziria muitos capítulos. Mas aquele momento representou um marco para as comunidades de Takuara, Pini, Marai localidades do Baixo Tapajós, que passaram a transformar a memória de seus antepassados em instrumento de afirmação de direitos.
E é essa história de resistência, reconhecimento e luta pela garantia de suas terras que os próprios Munduruku continuam contando e celebrando.
REMENDO RP
Manifestação do povo Munduruku de Takuara
Bom dia, passando para informar que hoje é a comemoração da entrega da demarcação física na aldeia.
Na vinda do ministro vamos solicitar sua presença na aldeia

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