
JACAREACANGA/PA, 12mar'2026 às 21hs13'- Com as devidas proporções e sem qualquer exagero comparativo, seria imprudente colocar lado a lado o conhecido balneário de Alter do Chão — muitas vezes chamado de “Caribe da Amazônia” — com a bucólica e ainda pouco valorizada comunidade de São Martim, no município de Jacareacanga. Ainda assim, a comparação surge naturalmente quando se discute o potencial turístico da região.
São Martim permanece como uma comunidade simples, marcada pela tranquilidade e por uma forte presença de miscigenação cultural entre populações indígenas e não indígenas. Apesar de sua beleza natural e de sua riqueza sociocultural, a localidade ainda carece de investimentos estruturais que permitam transformar esse potencial em atividade econômica organizada.
O município de Jacareacanga enfrenta um obstáculo conhecido em diversas regiões da Amazônia: a baixa arrecadação própria. A maior parte dos recursos que sustentam as políticas públicas provém de repasses constitucionais descentralizados, o que limita a capacidade de investimento em projetos estruturantes. Nesse cenário, torna-se difícil iniciar até mesmo ações embrionárias voltadas ao fomento do turismo, setor que poderia gerar renda, emprego e dinamizar a economia local.
Entretanto, não faltam elementos que poderiam sustentar uma política consistente de desenvolvimento turístico. A própria composição social da comunidade, marcada pela convivência entre descendentes de povos indígenas e populações de origem diversa, constitui um atrativo cultural relevante. Essa diversidade manifesta-se em costumes, modos de vida e também na gastronomia regional, especialmente baseada em pescados abundantes na região.
Além disso, a proximidade com comunidades indígenas preserva aspectos culturais singulares, como o uso cotidiano de línguas originárias, a produção artesanal tradicional e formas próprias de organização social, muitas vezes estruturadas em sistemas de patrilocalidade. Esses elementos representam um patrimônio cultural de grande valor, que poderia ser apresentado aos visitantes de forma respeitosa e sustentável.
No campo ambiental, os recursos naturais são igualmente promissores. Trilhas ecológicas, lagos ricos em pescado, competições fluviais e a contemplação da paisagem amazônica com ricas fauna e flora compõem um conjunto de atrativos capazes de sustentar iniciativas de turismo ecológico ou de base comunitária. Em síntese, os ingredientes fundamentais para o desenvolvimento do turismo estão presentes.
O grande desafio reside na ausência de infraestrutura adequada. Estradas em boas condições, transporte regular, hospedagem e serviços de apoio são requisitos indispensáveis para transformar potencial em realidade econômica. Nesse ponto, a responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre o poder público municipal. A participação da iniciativa privada é essencial, sobretudo na implantação de estruturas hoteleiras, transporte turístico e serviços de alimentação.
Moradores da região também relatam dificuldades agravadas durante o chamado inverno amazônico. As fortes chuvas tornam ainda mais precária a situação das estradas. Até mesmo a Rodovia Transamazônicauma rodovia federal apresenta trechos críticos nesse período, comprometendo a mobilidade regional.
A estrada vicinal que liga a sede municipal à comunidade de São Martim, em um percurso aproximado de 21 quilômetros, é um exemplo dessas dificuldades. O trajeto, marcado por relevos e pavimentação com material natural conhecido como piçarra, costuma apresentar inúmeros buracos durante a estação chuvosa, dificultando o tráfego de veículos.
Essa precariedade afeta não apenas a mobilidade dos moradores, mas também a atividade produtiva. Ao longo dessa via encontram-se diversos pequenos produtores rurais que cultivam e comercializam produtos agrícolas. Em épocas de chuva intensa, muitos enfrentam sérios obstáculos para escoar sua produção.
Portanto, embora São Martim possua um conjunto significativo de atrativos naturais, culturais e econômicos, o caminho para transformar esse potencial em fonte de renda e emprego exige planejamento, investimentos e cooperação entre poder público, iniciativa privada e comunidade local.
Cabe agora aos gestores municipais e aos vereadores direcionarem seus esforços para a busca de recursos e projetos que possam estruturar o turismo regional. A população espera mais iniciativas concretas de desenvolvimento e menos disputas políticas principalmente atualmente no Poder Legislativo que pouco contribuem para o progresso coletivo.
O que o povo ganha mesmo com a "brigalhada do diabo" no Poder Legislativo?
Afinal, diante de um patrimônio natural e cultural tão rico, a maior responsabilidade da classe política é trabalhar para transformar oportunidades em realidade para a população.
